Cápsulas cosméticas de uso tópico

Cápsulas cosméticas de uso tópico

Por Karina Soeiro

Buscar soluções que unam inovação, sustentabilidade e praticidade para o mercado de dermocosméticos é uma necessidade vital para as empresas deste setor. Aliar esses requisitos a uma solução que facilite a transposição de alguns desafios farmacotécnicos, como a oxidação e instabilidade de alguns insumos, é uma opção viável através do desenvolvimento de uma nova forma-cosmecêutica, as cápsulas cosméticas.

Cápsulas cosméticas, ao contrário do que o nome pode sugerir, não são nutracêuticos que atuam em sinergia com produtos de uso tópico para a promoção da saúde ou beleza da pele. As cápsulas cosméticas são uma nova forma cosmecêutica de uso tópico que vem ao encontro da crescente a demanda por produtos inovadores que sejam mais sustentáveis, eudérmicos,  e tragam praticidade a rotina diária. A ausência de água e conservantes na sua composição, praticidade em viagens e possibilidade de refil, conferem às cápsulas cosméticas inúmeras vantagens, tanto ao consumidor quanto ao formulador.

Aliado a esses benefícios as cápsulas cosméticas remetem ao desejo do consumidor de ser parte ativa na sua rotina de cuidados se alinhando a tendência “Do it yourself” de maneira prática e objetiva: um pote de cápsulas cosméticas, uma pequena pipeta de Pasteur de 0,5mL e água mineral são tudo que o consumidor precisa para preparar seu cosmético. Para agregar valor a este conceito, um porta cápsulas (para transportar pequena quantidade na bolsa ou viagens), um mini cadinho para facilitar o preparo, e a possibilidade de refil das cápsulas, completam um kit de inovações de encher os olhos.

As cápsulas utilizadas podem ser tanto as convencionais de gelatina, ou as opções veganas e de fácil desintegração, como as cápsulas de pululam, proveniente da fermentação natural do amido da mandioca (tapioca). As cápsulas de gelatina, além de serem de origem animal apresentam desintegração mais lenta na presença de água quando comparada a versão de tapioca (Tapiocaps™) e se forem utilizadas como cápsulas cosméticas, o mais indicado é que a cápsula seja aberta e descartada, sendo utilizado somente pó do seu conteúdo, que irá se transformar em uma emulsão na presença de água, ou então o que é mais prático, a utilização da cápsula de tapioca que irá desintegrar e ser homogeneizada ao seu conteúdo na presença de água com auxílio de espátula. Uma outra vantagem considerável da utilização das cápsulas de pululam é a formação de filme tensor que promove efeito lifting imediato com toque seco e aveludado,  muito apreciado pelos consumidores.

Para o formulador, a possibilidade de uma formulação anidra e de uso extemporâneo representa uma ótima ferramenta para veicular insumos que se oxidam ou sofrem hidrólise na presença de água, conferindo estabilidade a formulação, permitindo o uso de insumos instáveis que representam um desafio farmacotécnico como exemplo clássico o ácido ascórbico. Além da estabilidade, as cápsulas cosméticas são práticas, uma vez que podem ser transportadas em doses unitárias em viagens ou na bolsa, ocupando menos espaço e prevenindo acidentes como a quebra e vazamento de produto em malas. São também formulações consideradas mais “suaves” pois dispensam a utilização de conservantes antimicrobianos e antioxidantes, como exemplo o metabissulfito de sódio, que são conhecidos pelo potencial de sensibilização cutânea em indivíduos com a pele mais pré-disposta a reações inflamatórias, como dermatite de contato por agentes químicos.

A pesquisa e desenvolvimento de formulações em cápsulas tópicas deve levar em consideração as classes de insumos importantes para compor uma formulação de emulsão, como por exemplo umectantes, emolientes, agentes de consistência, emulsionantes na sua forma sólida (de preferência em pó) e modificadores de sensorial como excipiente para preencher o volume total das cápsulas. É possível a inclusão de insumos líquidos em pequenas quantidades, em especial óleos, ésteres e insumos ativos apolares, se atentando as limitações desta forma fármaco-cosmecêutica como a escolha de insumos polares líquidos, devido ao fato desta formulação ser dispensada em cápsula cuja composição é um polímero hidrossolúvel, e o contato com líquidos polares inevitavelmente iniciariam a desintegração da mesma.

O formulador deve levar em consideração o volume final da formulação após reconstituição ao realizar o cálculo da quantidade de cada insumo e o excipiente deve ser calculado em razão do volume da cápsula escolhida e da densidade da soma dos insumos, como no exemplo da formulação a seguir.

Cápsula Tópica para tratamento do Envelhecimento cutâneo

Ingrediente  / Concentração  / Quantidade para produção 30 cápsulas

  1. Ácido Ascórbico 20% (não revestido)  12g
  2. Relievene ® (Rhodiola Rosea Root Extract (and) Carnosine (and) Alanyl Glutamine) 0,3%, 0,6g
  3. N Acetyl D Glucosamina 5%, 3g
  4. Physavie ® (Physalis Angulata Extract (and) Caprylic/Capric Triglyceride) 0,2%, 0,12g
  5. Revinage® (Bidens Pilosa Extract (and) Elaeis Guineensis (Palm) Oil (and) Gossypium Herbaceum (Cotton) Seed Oil (and) Linum Usitatissimum (Linseed) Seed Oil )1%, 0,6g
  6. Cellfie® (Water (and) Propanediol (and) Lecithin (and) Glycerin (and) Thymus Vulgaris (Thyme) Flower/Leaf Extract) 2 %, 1,2g
  7. Fragrância 1%, 0,6g
  8. Lactose 2%, 1,2g
  9. Óleo de Oliva em pó 2%, 1,2g
  10. Lecigel® (Sodium Acrylates Copolymer (and) Lecithin) 1,78%, 1,068g
  11. Makibeads 80 ® (Methyl Methacrylate Crosspolymer) q.s.p

Procedimento de preparo:

  1. Pesar fase A em gral e triturar com auxílio do pistilo. Passar no tamiz mesh 20 (aproximadamente).
  2. Adicionar fase B sobre a fase A e homogeneizar.
  3. Adicionar fase C sobre a fase A+B e homogeneizar. Em seguida adicionar fase D, depois a E e repetir o procedimento.
  4. Adicionar fase F geométricamente (verificar a densidade e quantidade necessária de Makibeads 80® para preencher a cápsula Tapiocaps™ número 0).
  5. Proceder o encapsulamento e envasar em pote cosmético.

Observação importante: Essas formulações foram feitas e padronizadas em Tapiocaps™ número 0 (padronizadas com volume teórico de 0,68mL ou 500mg), mais 1,5mL de água, totalizando aproximadamente 2mL após a reconstituição, sendo assim o cálculo dos insumos em percentual é feito utilizando como referência uma dose de 2 mL vezes o total de cápsulas produzidas.

Por Renata Kalil

Revolução digital, pandemia, avanço da crise climática… e talvez um dos assuntos mais relevantes hoje seja a nossa dieta. Isso porque o veganismo se tornou um dos mais óbvios sinônimos de sustentabilidade. Segundo estudo da Universidade de Oxford publicado em 2018 pela revista Science, mais que reduzir o tempo do banho, cortar viagens de avião ou comprar um carro elétrico, eliminar a carne e derivados do leite da sua alimentação reduziria 73% da sua pegada de carbono. “Uma dieta plant-based é provavelmente o único e melhor caminho para minimizar o nosso impacto no planeta”, diz a publicação.

Ano passado, conversando com a Barbara De Laere, CEO Global da Aveda, que acabava de concluir a transição para se tornar uma marca completamente vegana, eu entendi como ações como essa têm influência sobre toda a indústria, da alimentação à beleza, além de impacto ambiental, claro. Muitos fornecedores de matérias-primas como mel e cera de abelha, só para citar um exemplo, são os mesmos que servem a indústria alimentícia. A decisão de uma grande marca que opta por alternativas vegetais ressoa por toda a cadeia.

Dos bastidores da indústria às prateleiras, a correlação entre comida e cosmético ganha cada vez mais desdobramentos – o que eu vejo como um dos movimentos mais interessantes desse mercado hoje. Na Califórnia, berço do clean beauty e referência global de cultura de sustentabilidade e tradição plant-based, é comum encontrar alimentos em boutiques de beleza, itens de skincare em restaurantes e tudo junto e misturado nos corredores de mercados como Whole Foods, Erewhon Lassens… espaços apontados como “the next beauty destination” (os próximos destinos para se comprar e se vender itens de beleza, na tradução) pelo Business of Fashion, em 2020.

Fato é que quando pensamos em veganismo, em evitar glúten, em consumir orgânicos ou mesmo em produtos halal, tratamos de critérios que, para o consumidor, têm a mesma importância, seja em relação à beleza ou à alimentação. A CAP granola, criada em parceria com a chef americana Kat Turner, é um dos itens mais vendidos da boutique de beleza limpa CAP Beauty – uma das mais relevantes e de vanguarda do mercado.

Nos últimos anos, com a ascensão da cultura de wellness pelo mundo, também aprendemos sobre os poderes do “inner beauty” (beleza de dentro para fora), que se tornou praticamente uma nova categoria de cosméticos. Uma categoria que é sobre provar a eficácia de suplementos alimentares, tanto quanto de cosméticos, para tratar pele, cabelo…

Nomes de skincare passaram a criar suplementos alimentares, como a alemã Dr. Barbara Sturm e as americanas Goop e The Nue Co. O contrário também aconteceu, como provam a Mood Juice, na Califórnia, que lançou linha própria de beleza, e a canadense Rainbo, de suplementos à base de cogumelos, que desenvolveu seu primeiro item de body care recentemente.

Os superalimentos (alimentos especialmente ricos em nutrientes associados a benefícios à saúde) também se tornam ingredientes-estrela de fórmulas ultradesejadas, como o Superfood Cleanser da californiana Youth To The People, marca-referência do movimento, que acaba de ser incorporada pela L’Oréal. E mais recentemente, passamos a usar o termo “food-focus beauty” (que se refere a fórmulas que têm alimentos como ingredientes-herói), além de “food-based beauty” (fórmulas de beleza criadas à base alimentos). A indie brand também californiana Wonder Valley, que cria azeites de cozinha e skincare à base de azeite, é um exemplo. Assim como a inglesa Haeckels, que tem xampu de brócolis, face oils de semente de tomate, de abóbora, esfoliante de café…

O foco parece mesmo estar na comida e na interação desses dois universos, que afinal são sobre nutrir o corpo e melhorar a saúde – dois anseios ampliados pela pandemia. O curioso é que essa tendência floresce mais entre as marcas de beleza vegana, um segmento cada vez menos entendido como nicho. Globalmente, ele já representa um mercado de 15.1 bilhões de dólares, que deve crescer para 21.4 bilhões até 2027, segundo dados do ReportLinker publicados pela Forbes. E, claro, assim como comida, produtos de beleza veganos não são apenas para veganos.

Quando falamos sobre alimentação, destacamos os “flexitarianos”, aqueles que optam por uma dieta totalmente plant-based em um dia da semana ou em uma refeição do dia. Esse é um consumidor que se declara “imperfeito”. Ele sabe das consequências ambientais da sua dieta e responde a elas, mas sem se comprometer com um lifestyle 100% vegano 100% do tempo.

Certamente há os “flexitarianos da beleza”, um grupo que busca por melhores alternativas sem exigir das empresas um “ideal de impacto mínimo”. Já é possível notar um reflexo desse comportamento no mercado, mas acredito que esse movimento tem ainda um enorme potencial, capaz de estimular muito mais marcas de beleza a tomarem iniciativas pró-meio ambiente e a aderirem a práticas mais éticas e sustentáveis, a começarem. Esse é um processo para pessoas e para empresas – e um processo que não necessariamente termina em greenwashing, mas em transformação de verdade.

No último Dia da Terra, Biossance, Youth To The People, Herbivore, REN (todas livres de testes em animais) e Caudalie se uniram em uma campanha de apelo por um consumo mais consciente. Na iniciativa, as marcas se comprometeram a oferecer embalagens recicláveis e refiláveis até 2025. Grandes nomes da indústria tradicional também se movimentam para oferecer alternativas de menor impacto, como a Love Beauty and Planet, que tem estações para reabastecer embalagens nos Estado Unidos, e a Dove, que viralizou em conteúdos no TikTok graças a seu desodorante com alternativa de refil e embalagem 100% reciclada.

Já ao observar as marcas que nascem veganas, livres de crueldade, sustentáveis, especialmente no Brasil, noto empresas fantásticas com ações incríveis, mas que simplesmente não comunicam o que fazem, quem são ou no que acreditam. Trabalhar a imagem da marca e ter uma boa comunicação resulta em criar cultura, transformar comportamento e contribuir para a construção desse novo consumidor – que precisa estar mais informado, mais confiante e mais exigente para ver valor em um segmento da beleza comprometido em gerar impacto positivo. Trabalhar por isso é também uma missão coletiva dos players desse ecossistema. Uma missão de todo o mercado, que dela depende.

Ser uma marca vegana ou abraçar uma causa não é algo simples, envolve elementos intangíveis e confere novos papeis às empresas. Os líderes desse segmento representam mais que marcas, representam um movimento que influencia, comunica e informa. A Biossance, com o seu Clean Academy, e a Haeckels, que assina um dos blogs mais interessantes de blue beauty, são exemplos de como investir em cultura e conteúdo.

Acredito que o trabalho de produzir uma beleza ética e livre de crueldade é tão importante quanto produzir uma cultura de práticas sustentáveis e de consumo consciente.

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