Os Lipídios do estrato córneo e tratamento de substituição dos lipídios

Os Lipídios do estrato córneo e tratamento de substituição dos lipídios

Aprenda como os lipídios do estrato córneo afetam a saúde da pele e possíveis tratamentos contra a depleção desses lipídios.

A pele é o maior órgão do corpo humano e sua principal função é protegê-lo contra a perda de componentes fisiológicos e contra condições ambientais prejudiciais. Ela é dividida em três camadas:  epiderme, derme e hipoderme.

A epiderme, a camada mais superficial da pele, é subdividida em outras 4 camadas: estrato córneo, estrato granuloso, estrato espinhoso e o estrato basal. A função de barreira cutânea se dá principalmente na camada mais externa da epiderme, o estrato córneo. Este por sua vez é composto de  células chamadas de corneócitos  que se encontram envolvidas por uma matriz lipídica existente na forma de bicamadas lipídicas. As bicamadas lipídicas são o único caminho através do estrato córneo e são responsáveis pela formação e manutenção da função de barreira da pele. Por isso, qualquer depleção ou distúrbio nos lipídios que compõem o estrato córneo pode prejudicar sua função de barreira. Analogamente, algumas doenças são associadas com a depleção desses lipídios. Consequentemente, a reposição dos lipídios ausentes pode ser explorada como tratamento de peles afetadas.

As camadas lipídicas são compostas de ceramidas, ácidos graxos livres e colesterol organizados de modo específico na matriz lipídica nas concentrações de 40-50, 20-33 e 7-13%, respectivamente. Entretanto, essas concentrações variam conforme sexo, idade, estado patológico do indivíduo e estações do ano. Além disso, existem outros fatores externos e internos que podem modificar a organização e composição dos lipídios no estrato córneo. Estudos demonstraram que a exposição a alguns químicos utilizados e em produtos de limpeza e sanitizantes, poluentes ambientais, ingredientes farmacológicos e algumas adversidades físicaspodem afetar o estrato córneo.

Foi comprovada que a aplicação de acetona e etanol na pele pode causar  perturbação da barreira cutânea devido a remoção de parte dos lipídios do estrato córneo. Assim como a aplicação de uma solução de 5% de lauril sulfato de sódio demonstrou afetar lipídios intercelulares como o colesterol, ácidos graxos livres e esfingolipídios. O nível de perturbação da barreira cutânea depende da natureza dos químicos e do nível de exposição a eles. Fatores internos como dieta inapropriada, envelhecimento e níveis elevados de estresse também podem alterar os níveis de lipídios na matriz.

A depleção ou distúrbio nos lipídios do estrato córneo é conhecido por ser a  principal causa de ressecamento e ruptura da pele. Como resultado, ela perde água, se torna seca, rachada e com fissuras que permitem a entrada de alergênicos, toxinas e microorganismos que podem causar inflamação e irritação. A inflamação pode causar ainda mais distúrbios nos lipídios do estrato, formando um ciclo vicioso.

Este quadro pode resultar em outras condições como ressecamento severo da pele e prurido,  e suas consequências podem levar a infecções secundárias causadas por vírus, bactérias ou fungos. Outras doenças podem ser associadas com a depleção de lipídios do estrato córneo, como por exemplo, eczema, psoríase, dermatite atópica, ictiose, xerose, entre outras.

Em circunstâncias normais, se a função de barreira da pele é comprometida, uma sequência de reparo é rapidamente iniciada com o aumento da síntese de todos os lipídios do estrato córneo de modo a restabelecer a homeostase. Entretanto, em condições anormais, a taxa de síntese desses lipídios é comprometida e um restabelecimento rápido dos lipídios depletados pode não ser possível, prejudicando a função de barreira da pele. Porém, estudos mostram como a função pode ser restabelecida, sendo que as principais abordagens incluem restabelecer os lipídios perdidos ou administrar agentes que facilitam a produção desses lipídios.

Diversos estudos demonstraram que a aplicação de misturas de lipídios contendo ceramidas, colesterol e ácidos graxos livres em uma proporção adequada facilitam o processo de recuperação da barreira cutânea, em peles que sofreram extração de lipídios por acetona, éter de petróleo ou alguns detergentes. Entretanto, a aplicação desses lipídios não foi efetiva em peles tratadas com alguns agentes detergentes como lauril sulfato de sódio. O resultado negativo foi atribuído ao efeito de desnaturação de proteínas dos surfactantes utilizados e sua penetração em camadas mais profundas de pele.

Alguns pesquisadores sugerem que para o tratamento com o uso de lipídios ser eficiente, esses lipídios devem atravessar o estrato córneo e chegar na interface entre o estrato córneo e o estrato granuloso (camada logo abaixo do estrato córneo). Por isso, a difusão eficiente entre essas camadas é uma variável importante para o tratamento.

Além dos lipídios do estrato córneo, tentativas de administrar seus análogos foram feitas. Em uma universidade na República Tcheca, pesquisadores descobriram que um creme contendo um análogo de ceramida (N-tetracosanoyl-(L)-serine tetradecyl ester) mostrou um ótimo resultado na reparação da barreira cutânea em peles que sofreram extração de lipídios em testes in vivo e ex vivo. Ao contrário das ceramidas naturais, o análogo foi sintetizado por um método de baixo custo, de duas etapas e que oferece a vantagem de minimizar a inativação enzimática.

Ceramidas são sintetizadas e transformadas no processo de diferenciação de queratinócitos. Sua síntese envolve precursores de ceramidas e várias enzimas como a serina palmitoiltransferase. Componentes que podem aumentar a atividade dessas enzimas aumentam o nível de ceramidas no estrato córneo. Por outro lado, ceramidas podem ser degradadas por enzimas chamadas ceramidases, logo componentes que inibem essas enzimas degradativas podem produzir um aumento na concentração de ceramidas no estrato córneo. Alguns desses componentes são:

Nicotinamida e seus derivados mostraram aumentar a síntese de ceramidas, glucosilceramidas, esfingomielina, ácidos graxos livres e colesterol. Esse resultado foi atribuído pela regulação positiva da enzima serina palmitoiltransferase. Ácido ursólico também foi classificado como um agente capaz de aumentar a produção de ceramida na pele.

Um estudo americano mostrou que ácido lático aumentou significantemente o nível de ceramidas no estrato córneo, o que foi associado com a transformação pelo metabolismo do ácido lático em Acetil CoA, que é uma fonte de carbono para a síntese de lipídios. Já outro estudo comprovou que a aplicação de extrato de eucalipto melhorou a barreira da pele, o que é associado com o ativo macrocarpal A.  Macrocarpal A é um dos principais ingredientes ativos do extrato de eucalipto.  De acordo com os autores, esse ativo aumenta a quantidade de ceramidas ao estimular a expressão de enzimas que estimulam a sua síntese, como por exemplo serina palmitoiltransferase, glicosiltransferase, esfingomielinase, e glucocerebrosidase.

Sódio dl-α-tocoferol-6-O-fosfato, um derivado estável contra oxidação da vitamina E  é outro componente que aumenta os níveis de ceramida, pois induz a diferenciação de queratinócitos ao aumentar a entrada de cálcio em suas células e estimula a expressão dos genes que realizam a síntese de ceramidas. Além de possuir efeito antioxidante e anti inflamatório que reduz a degradação de lipídios no estrato córneo.

A pele apresenta grande importância para a proteção do corpo humano sendo que sua função de barreira se dá devido principalmente ao estrato córneo, mais especificamente a sua composição e organização da sua matriz lipídica. Logo, a depleção dos lipídios do estrato córneo, que pode ocorrer por diversos motivos, como por exemplo o uso de certos químicos, altera seu funcionamento e pode levar a diferentes doenças e infecções. Estudos  mostram que a reposição desses lipídios de modo direto ou aumentando sua síntese de modo indireto, são tratamentos efetivos.

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Referências:

Sahle F.F; et al. [Skin Diseases Associated with the Depletion of Stratum Corneum Lipids and Stratum Corneum Lipid Substitution Therapy]. Skin Pharmacol Physiol 2015;28:42-55. Disponivel em: <https://www.karger.com/Article/FullText/360009 >. Acesso em 6 de março de 2019.

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